Governo de Mato Grosso tenta impor “lei da mordaça” a sindicatos com PLC que restringe licença classista

Projeto do Executivo muda regras da licença sindical; em audiência pública, entidades pedem retirada da proposta por considerarem que ela enfraquece os sindicatos

O início de 2026 marca mais um capítulo dos ataques do governo de Mato Grosso aos direitos históricos do funcionalismo público estadual. Em meio à luta dos servidores e servidoras pela recomposição das perdas acumuladas da Revisão Geral Anual (RGA), o Executivo encaminhou à Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) o Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 01/2026, que altera as regras da licença classista, instrumento central para a organização e a representação sindical dos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público.


Sob o discurso tecnocrático de “modernização” e “racionalização administrativa”, o PLC 01/2026 impõe, na prática, limites à liberação remunerada de servidores para o exercício de mandatos em sindicatos e entidades representativas. Para o movimento sindical de Mato Grosso, a proposta representa um impacto direto sobre a autonomia das organizações e sobre a liberdade sindical.

A proposta altera dispositivos da Lei Complementar nº 04/1990 (Estatuto dos Servidores Públicos do Estado) e modifica o artigo 115, que hoje assegura ao servidor o direito à licença para o desempenho de mandato em confederações, federações, sindicatos e associações de classe. Entre as mudanças está a inclusão do § 3º, que veda a concessão de licença remunerada após uma reeleição consecutiva. Na prática, o dirigente que cumprir dois mandatos passa a ser obrigado a “conciliar” a atividade sindical com as atribuições do cargo efetivo, sem afastamento do trabalho.

Além disso, o projeto vai além: mesmo que o servidor seja eleito ou reeleito para continuar na direção do sindicato ou de uma associação, ele não poderá mais se afastar do trabalho para exercer o mandato. Na prática, terá que dar conta da função sindical e do seu cargo no Estado ao mesmo tempo. O texto ainda prevê apenas uma “flexibilização de horário” para participação em assembleias, reuniões ou atos sindicais, desde que autorizado pela chefia imediata.

Ao restringir o afastamento e dificultar a dedicação integral à atividade sindical, o PLC compromete o funcionamento das entidades e enfraquece a capacidade de mobilização coletiva, interferindo no direito constitucional à livre organização sindical. Para as entidades, a medida afeta a atuação política dos sindicatos em um momento de intensificação das lutas pela garantia de direitos.

A proposta não surge isoladamente. No início deste ano, servidoras e servidores protagonizaram uma grande mobilização, lotando as galerias da Assembleia Legislativa durante a sessão que votou a RGA, em defesa do pagamento de 19,52% de perdas salariais não quitadas pelo governo, parte de um passivo que se arrasta há anos. As perdas salariais acumuladas somam hoje 18,38%. Soma-se a esse cenário o escândalo envolvendo descontos em folha de pagamento de empréstimos consignados de servidores públicos, denunciado por sindicatos, que apontaram irregularidades, cobranças abusivas e falta de transparência nos contratos firmados com instituições financeiras.

Audiência Pública

A tramitação do PLC 01/2026 na Assembleia Legislativa motivou a realização de uma audiência pública na ALMT, nesta terça-feira (10), convocada pela deputada Janaína Riva (MDB), que reuniu dirigentes de mais de 50 sindicatos, federações e associações de servidores estaduais e municipais. O projeto foi duramente criticado por representantes das entidades e por parlamentares presentes.


Para a presidenta da Federação dos Servidores Públicos de Mato Grosso (FESSP-MT), Carmen Machado, o projeto representa um retrocesso. “Hoje a democracia em Mato Grosso está em teste. O Estado não pode dizer quem pode ou quando pode representar uma categoria. Rejeitar esse projeto não é proteger dirigentes sindicais, é proteger o direito de toda uma categoria de ser representada com dignidade”, afirmou.

Carmen Machado. Foto: ADUNEMAT


O tesoureiro-geral da ADUNEMAT – Seção Sindical do ANDES-SN, professor Domingos Sávio da Cunha Garcia, avaliou que o PLC surge em um contexto de mobilizações recentes. “Esse projeto chega num momento em que os sindicatos mostram força. Quando os sindicatos se fortalecem, o governo busca alterar regras que impactam a organização coletiva”, afirmou.

Domingos Sávio. Foto: ALMT


Na mesma linha, a presidenta da ADUNEMAT, Luciene Neves, afirmou que o PLC 01/2026 não pode ser tratado como um ajuste técnico na legislação. “O governo atinge o funcionalismo ao alterar regras que afetam diretamente sindicatos e associações que atuam na defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do serviço público em Mato Grosso”, destacou.

Luciene Neves e Domingos Sávio. Foto: ADUNEMAT


Impacto também nos municípios

Dirigentes sindicais alertaram ainda para os impactos do PLC no âmbito municipal. Em muitos municípios, as legislações locais reproduzem o Estatuto dos Servidores do Estado, o que pode levar à aplicação indireta das mesmas restrições. Para o presidente da Federação dos Sindicatos dos Servidores Públicos Municipais de Mato Grosso, Nedilson Maciel dos Santos, o projeto interfere na autonomia das entidades. “Quem escolhe o presidente do sindicato é a categoria sindicalizada. Não cabe a governador ou prefeito limitar número de mandatos ou criar obstáculos para o exercício da representação”, afirmou.

A deputada Janaína Riva também chamou atenção para as consequências práticas dos §§ 4º e 5º do PLC, que obrigam o servidor eleito ou reeleito para mandato sindical ou associativo, após os períodos previstos na lei, a conciliar a atividade classista com as atribuições do cargo efetivo, permitindo apenas uma flexibilização de horário, condicionada à autorização da chefia imediata e sem prejuízo ao serviço público. “Como o servidor vai participar de reuniões, audiências públicas, negociações e atividades do sindicato se não pode se afastar do seu trabalho? Vai ter que representar sua categoria só à noite, depois da jornada? Isso inviabiliza, na prática, o trabalho sindical”, criticou. Também participaram da audiência os deputados Lúdio Cabral (PT), Eduardo Botelho (União) e Wilson Santos (PSD).

Audiência Pública. Foto: ADUNEMAT


Domingos Sávio ainda ressaltou que o projeto tramita em ano eleitoral. “Estamos em ano eleitoral. Os servidores têm o direito de enfrentar esse debate também no terreno da política. O Executivo é o principal formulador desse projeto e terá de responder politicamente por seus efeitos”, afirmou.

Tramitação e mobilização

Ao final da audiência pública, as entidades deliberaram intensificar a mobilização e acompanhar de perto a tramitação do PLC na ALMT, pressionando pela retirada do projeto da pauta. Parlamentares indicaram que, caso a proposta não seja retirada, será disputada a apresentação de emendas ou de um substitutivo integral para descaracterizar os pontos mais nocivos ao direito de organização sindical.

O PLC 01/2026 já recebeu parecer favorável da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da ALMT, sob relatoria do deputado Dilmar Dal Bosco (União). Após pedido de vista de parlamentares, o projeto está apto para votação em plenário. Para ser aprovado, precisa do voto de, no mínimo, 13 dos 24 deputados estaduais.

Assessoria ADUNEMAT
Fotos: ADUNEMAT e ALMT